(¯`·._.·[ Koisas da Aliana ]·._.·´¯)

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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ninguém






A rua estava fria. Era sábado ao anoitecer, mas eu estava chegando e não saindo.
Passei no bar e comprei um maço de cigarros.Vinte cigarros. Eram os vinte cigarros que iam passar a noite comigo.
A porta se fechou como uma despedida para a rua. Mas a porta sempre se fechava assim.
Acender o fogo, esquentar o arroz, fritar o ovo.A gordura estala e espirra, ferindo minhas mãos. A comida estava boa. Estava realmente boa, embora tenha ficado quase a metade no prato. Havia uma casquinha de ovo e pensei em pedir-me desculpas por isso.Sorri com esse pensamento. Acho que sorri. Devo ter sorrido. Era só uma casquinha.
Busquei no silêncio da copa algum inseto, mas eles já tinham todos adormecidos para a manhã de domingo.
Então eu falei em voz alta. Precisava ouvir alguma coisa e falei em voz alta. Foi só uma frase banal. Se houvesse alguém perto diria, que eu estava ficando doido.Eu podia dizer o que quisesse. Não havia ninguém para me ouvir. Eu podia rolar no chão, ficar nu, arrancar os cabelo, chorar, gemer, soluçar, perder a fala, não havia ninguém.Eu podia até morrer.
De manhã o padeiro perguntou se estava tudo bem. Eu sorri e disse que estava.Na rua o vizinho perguntou se estava tudo certo. Eu disse que sim e sorri.Também meu patrão me perguntou eu disse que sim.
Veio a tarde e meu primo me perguntou se estava tudo em paz e eu sorri dizendo que estava. Depois, sorri e disse que sim, estava tudo azul.
Luiz Vilela
Tremor de terra 4ª edição

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